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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Papa promulga documento dedicado à vida contemplativa feminina

“A busca da face de Deus” (Vultum Dei Quaerere) é o título da Constituição Apostólica assinada pelo Papa Francisco ededicada à vida contemplativa feminina. O documento, publicado esta sexta-feira (22/07), indica 12 temas de reflexão para a vida consagrada e se conclui com 14 orientações.

Faróis e centelhas da humanidade

Às contemplativas, o Papa lança um desafio: ser “faróis e centelhas” que guiam e acompanham o caminho da humanidade, oferecendo o Evangelho ao mundo contemporâneo. O Pontífice as exorta a vencer com tenacidade as tentações, em especial “a tentação que degenera em apatia, rotina, desmotivação e indiferença paralisante”.


Formação e oração

Francisco convida a “discernir” sobre 12 temas da vida consagrada. O primeiro é a formação, “que requer uma contínua conversão a Deus” e um período que varia de 9 a 12 anos. Os mosteiros não devem se deixar levar pela tentação do número e da eficiência, adverte o Papa. Depois, há a oração, “espinha dorsal da vida consagrada”, que não deve ser vivida como um fechamento da vida monástica em si mesma, mas como um alargamento do coração “para abraçar toda a humanidade”, em especial os que mais sofrem.


Lectio divina, Eucaristia e Reconciliação

A Palavra de Deus é outro tema central, que deve marcar o dia pessoal e comunitário das contemplativas através da lectio divina, para depois se transformar em actio, “dom para os outros na caridade”. A Constituição Apostólica recorda ainda a importância da Eucaristia e da Reconciliação, sugerindo “prolongar a celebração com a adoração eucarística” e viver a prática da penitência como “ocasião privilegiada para contemplar a face misericordiosa do Pai” e se tornar, assim, “instrumentos de reconciliação, de perdão e de paz” de que o mundo hoje necessita particularmente.


Vida comunitária e autonomia dos mosteiros

O quinto tema indicado pelo documento é a vida fraterna em comunidade, testemunho mais necessário do que nunca “numa sociedade marcada por divisões e desigualdades”. “É possível e belo viver juntos, não obstante as diferenças de geração, formação e cultura”, porque “unidade e comunhão não significam uniformidade”. O sexto tema diz respeito à autonomia dos mosteiros, que não deve significar “independência ou isolamento”, escreve o Papa, exortando as contemplativas a não adoecerem de “autorreferencialidade”.


As federações e a clausura

O sétimo tema ressalta a importância das Federações como “estruturas de comunhão entre mosteiros que compartilham o mesmo carisma”, sugerindo sua criação e multiplicação. O oitavo tema, ao invés, é relativo à clausura, “sinal da união exclusiva da Igreja esposa com o seu Senhor”.


O trabalho e o silêncio

O Papa destaca ainda o trabalho que as contemplativas devem realizar “com devoção e fidelidade”, sem se deixar condicionar pela mentalidade da cultura contemporânea, que aposta na eficiência. O trabalho deve ser entendido como “serviço à humanidade e solidariedade para com os pobres”. Já o silêncio é “escuta e ruminatio da Palavra”, “vazio de si para fazer espaço ao acolhimento”, silêncio “rico de caridade”, que “ouve Deus e o grito da humanidade”.


A cultura digital e os meios de comunicação


Consciente das transformações da sociedade e da “cultura digital”, que “influi de modo decisivo na formação do pensamento e no modo de se relacionar com o mundo”, Francisco propõe como 11º tema os meios de comunicação. “Instrumentos úteis para a formação e a comunicação”, o Papa todavia exorta as contemplativas a “um discernimento prudente” para que esses meios não sejam ocasião de “evasão da vida fraterna”, danificando a vocação e dificultando a contemplação.


A ascese rumo a Deus

Por fim, o último tema é ascese: “sinal eloquente de fidelidade” num mundo globalizado e sem raízes, exemplo de como ficar ao lado do próximo mesmo diante de diversidades, tensões, conflitos e fragilidades”. A ascese não é uma fuga do mundo “por medo” – destaca Francisco –, porque as monjas “continuam a estar no mundo sem ser do mundo”. Intercedendo “constantemente pela humanidade” junto ao Senhor, ouvindo “o clamor” de quem é “vítima da cultura do descarte”, as contemplativas são o “degrau” através do qual Deus desce ao encontro do homem e o homem sobe para o encontro com Deus.


Recrutamento de candidatas

A Conclusão da Constituição Apostólica se divide em 14 artigos que, de fato, definem em termos jurídicos o que foi dito pelo Pontífice precedentemente. Em especial, o art. 3 estabelece que se deve absolutamente evitar o recrutamento de candidatas de outros países com a única finalidade de garantir a sobrevivência do mosteiro. O art. 8 traz a lista dos requisitos necessários para a autonomia jurídica de uma comunidade, entre os quais a capacidade formativa e de gestão, a inserção na Igreja local e a possibilidade de subsistência. Caso não haja esses requisitos, a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada “avaliará a oportunidade de constituir uma comissão ad hoc” para “uma revitalização do mosteiro ou o seu fechamento”.


Obrigação inicial de pertencer a uma Federação

O art. 9 estabelece que “inicialmente todos os mosteiros deverão pertencer a uma Federação”. Se isto não for possível, o mosteiro deverá pedir a permissão da Santa Sé, à qual compete um “discernimento adequado”. Por fim, no art. 14 afirma-se que caberá à Congregação para os Institutos de Vida Consagrada emanar indicações práticas, aprovadas pela Santa Sé, de acordo com os carismas das várias famílias monásticas.


https://w2.vatican.va/content/francesco/it/apost_constitutions/documents/papa-francesco_costituzione-ap_20160629_vultum-dei-quaerere.html

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Cardeal Sarah propõe importante mudança para a Missa a partir do Advento

LONDRES, 07 Jul. 16 / 06:00 am (ACI).- O Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos no Vaticano, Cardeal Robert Sarah, propôs uma mudança importante para a celebração das Missas a partir do primeiro Domingo do Advento deste ano.

Na conferência inaugural do evento Sacra Liturgia UK 2016 que acontece em Londres entre os dias 5 e 8 de julho, o Cardeal Sarah afirmou que “é muito importante que voltemos o mais rápido possível a uma mesma direção, dos sacerdotes e de todos os fiéis na mesma direção: para o oriente ou pelo menos para o tabernáculo”.

Quando um sacerdote celebra a Missa Ad Orientem, em certas partes da Missa olha de frente para o “leste litúrgico”, ou seja, para o altar e de costas para os fiéis. Esta é uma prática comum na forma extraordinária da Missa. De frente para o povo, ou versus populum, é a prática estendida na forma ordinária da Eucaristia.

O que o Cardeal Sarah sugere, embora não de maneira oficial, seria uma mudança importante em relação à celebração da Missa, desde que o Papa Emérito Bento XVI decidiu liberar a forma extraordinária – em latim e Ad Orientem – com o motu proprio Summorum Pontificum em julho de 2007.

O Cardeal africano pediu aos sacerdotes que sejam prudentes na implementação da modificação que sugeriu ontem em Londres.

“Assim, queridos sacerdotes, peço-lhes para que implementem essa prática sempre que possível, com prudência e com a catequese necessária, certamente, mas também com a confiança pastoral de que isso é algo bom para a Igreja, algo bom para o nosso povo”, afirmou.

O Cardeal propôs que comecem “no primeiro Domingo do Advento (27 de novembro) deste ano, quando esperamos ‘o Senhor que vem’ e que não demorará a chegar”.

Na conferência, o Cardeal Sarah explicou que o Papa Francisco lhe pediu começar um estudo sobre “a reforma da reforma” para adaptar as mudanças litúrgicas do Concílio Vaticano II, e que este estudo busca “o enriquecimento das duas formas do rito romano”: a ordinária e a extraordinária.

Por que celebrar a Missa Ad Orientem?


Em 23 de maio deste ano, o Cardeal Robert Sarah concedeu uma entrevista à revista francesa ‘Famille Chretienne’, em que afirmou que “o melhor meio” para que Deus seja o centro da liturgia é “celebrar –sacerdotes e fiéis – todos na mesma direção: para o Senhor que vem. Não se trata, como se entende às vezes, de celebrar de costas para o povo ou olhando para eles. O problema não é esse”.

“Trata-se de olhar todos juntos para a abside que simboliza o oriente onde está o trono da cruz do Senhor ressuscitado”, precisou.

“Com esta maneira de celebrar, experimentaremos, também com o corpo, a primazia de Deus e da adoração. Compreenderemos que a liturgia se trata em princípio de nossa participação no sacrifício perfeito da cruz”.

Além disso, explicou o Cardeal, com o Concílio Vaticano II, “celebrar olhando ao povo se converteu em uma possibilidade, mas não é uma obrigação. A liturgia da palavra justifica que se vejam cara a cara o leitor e o povo, o diálogo e a pedagogia entre o sacerdote e seu povo. Mas como chegamos logo ao momento em que alguém se dirige a Deus – do Ofertório em diante – é essencial que o sacerdote e os fiéis olhem juntos para o Oriente. Isto corresponde exatamente ao que queriam os padres conciliares”.

“Como Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, desejo recordar que a celebração Ad Orientem está autorizada pelas rubricas, que especificam os tempos em que celebrante deve virar para o povo. Portanto, não é necessário ter uma permissão especial para celebrar olhando para o Senhor”.

Que a liturgia não seja um espetáculo


Na entrevista com ‘Famille Chretienne’, o Prefeito também disse que deseja “exortar uma grande reflexão sobre este tema para devolver a Eucaristia ao centro de nossa vida. Constato que muitas de nossas liturgias se convertem em um espetáculo”.

“Com frequência – continuou –, o sacerdote já não celebra o amor de Cristo através de seu sacrifício, mas um encontro entre amigos, uma partilha, um momento fraterno. Ao procurar inventar liturgias criativas ou festivas, corremos o risco de um culto muito humano, à altura de nossos desejos e das modas do momento”.

O Purpurado africano explicou que, com esta forma através da qual alguns sacerdotes encaram a Missa, “pouco a pouco os fiéis se afastam de quem nos dá a vida. Para os cristãos, a Eucaristia é uma questão de vida ou morte!”.

“A liturgia é a porta da nossa união com Deus. Se as celebrações eucarísticas se transformarem em autocelebrações humanas, o perigo é imenso porque Deus desaparece. Devemos começar a colocar Deus novamente no centro da liturgia”.

O Cardeal Sarah advertiu também que “se o homem for o centro da liturgia, a Igreja se converte em uma sociedade puramente humana, uma simples ONG, como disse o Papa Francisco”.

“Se, pelo contrário, Deus está no coração da liturgia, então a Igreja reencontrará seu vigor e sua seiva! ‘É na forma de tratar a liturgia que se decide a sorte da fé e da Igreja’, escreveu de maneira profética o CardealJoseph Ratzinger”.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O Papa Francisco ofereceu chaves de leitura para a sua exortação apostólica Amoris Laetitia

O Papa Francisco ofereceu uma profunda reflexão e chaves de leitura para a sua exortação apostólica Amoris Laetitia, recentemente publicada. O Santo Padre aproveitou a abertura do Congresso Eclesial da Diocese de Roma, na Basílica de São João de Latrão, que este ano aborda precisamente tal documento pontifício para recuperar algumas “ideias/tensões –chaves, surgidas durante o caminho sinodal” que podem ajudar a compreender melhor o espírito que se reflete na exortação.

E para fazê-lo utilizou três imagens bíblicas das quais tirou três conclusões: a vida de cada pessoa, a vida de cada família deve ser tratada com muito respeito e cuidado, especialmente quando refletimos sobre essas coisas; ter cuidado para não fazer uma pastoral de guetos e para guetos; dar espaço aos anciãos para que voltem a sonhar.

“Tire as sandálias, pois o chão que está pisando é uma terra santa.” Esta foi a primeira imagem usada pelo Papa em seu discurso. A este respeito destacou que o terreno que tinha que atravessar, os temas a serem enfrentados no Sínodo, “precisavam de uma atitude determinada”. Tínhamos na frente uma – esclareceu – os rostos concretos de muitas famílias. “Este dar rosto aos temas exigia e exige um clima de respeito capaz de ajudar-nos e escutar aquilo que Deus nos está dizendo dentro das nossas situações”, explicou o Papa.

Um respeito “carregado de preocupações e perguntas honestas que olhavam para o cuidado das vidas que somos chamados a pastorear”. O dar rosto aos temas, assegurou o Santo Padre, ajuda a “não ter pressa para obter conclusões bem formuladas, mas muitas vezes sem vida” e ajuda “para não falar em abstracto”. Porque muitas vezes nos tornamos ‘pelagianos’, disse.

Também afirmou que as famílias “não são um problema, mas uma oportunidade que Deus nos coloca à frente”. Oportunidade que “nos desafia a suscitar uma criatividade missionária capaz de abraçar todas as situações concretas” e não só nas nossas paróquias, mas saindo a busca-las. Outro desafio ao que fez referência é o do “não dar nada nem ninguém por perdido, mas buscar, renovar a esperança de saber que Deus continua atuando dentro das nossas famílias”, “não abandonar ninguém porque não está à altura do que lhe foi pedido”. Refletir sobre a vida das nossas famílias – insistiu Francisco – assim como são e assim como estão, nos pede para tirar as sandálias para descobrir a presença de Deus.

A segunda imagem é a do fariseu quando ora dizendo: “Meu Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, ladrões, injustos e adúlteros; nem sequer como esse publicano”. A este respeito, o Pontífice advertiu que uma das tentações às quais estamos expostos continuamente é ter uma “lógica separatista”, especialmente os que vivem em uma situação diferente. O Papa garantiu que não podemos analisar, refletir e rezar sobre a realidade “como se estivéssemos em lados ou caminhos diferentes, como se estivéssemos fora da história”. Todos – sublinhou – necessitamos de conversão.

Também indicou que o acento colocado na misericórdia “nos coloca diante da realidade de forma realista, mas não com um realismo qualquer, mas com o realismo de Deus”. As análises são importantes e necessárias, mas “nada se pode comparar com o realismo evangélico, que não para diante das descrições das situações, das problemáticas – menos ainda diante do pecado – mas vai sempre além e consegue ver detrás de cada rosto, de cada história, de cada situação, uma oportunidade, uma possibilidade”. O Papa garantiu que isso não significa não ser claros na doutrina, mas “evitar cair em julgamentos e atitudes que não assumem a complexidade da vida”.

O realismo evangélico – disse – suja as mãos porque sabe que “grão e ervas daninhas” crescem juntos, e o melhor grão, nesta vida, estará sempre misturado com um pouco de ervas daninhas.

Recordou um capitel medieval em uma Igreja na França no começo do caminho a Santiago, no qual está Judas que se enforca e do outro lado Jesus que o carrega. E voltando à imagem bíblica do fariseu destacou o perigo do Graças te dou porque sou da Ação Católica, da Cáritas, etc. e não como os destes bairros que são delinquentes… “isso não ajuda à pastoral”, disse o Papa.

Finalmente, a terceira imagem evocada pelo Papa é “seus anciãos terão sonhos proféticos” do livro de Joel. Com esta imagem o Santo Padre quis sublinhar a importância que os Padre sinodais deram ao valor do testemunho como lugar em que se pode encontrar o sonho de Deus e a vida dos homens.

Os sonhos dos anciãos vão junto com “as visões dos jovens”. Por isso, o Pontífice disse que é bonito encontrar matrimônios, casais, que sendo maiores continuam se procurando, se olhando, se querendo e se escolhendo. “É muito bonito encontrar ‘avós’ que mostram nos seus rostos enrugados pelo tempo a alegria que nasce do ter feito uma escolha de amor e pelo amor”, sublinhou. E a contradição daquele que casa e pensa: ‘não me preocupo, em dois ou três anos volto à casa da minha mãe”.

Nesta linha advertiu que como sociedade “privamos da sua voz os anciãos, e isso é um pecado social de agora. Privamos eles do seu espaço”. E descartando-os, “descartamos a possibilidade de tomar contato com o segredo que lhes permitiu seguir em frente”. Esta falta de modelos – observou Francisco – não permite às jovens gerações ter visões.

“Nós precisamos dos sonhos dos avós”, disse. E acrescentou que não por acaso quando Jesus é levado ao templo foi recebido por dois avós que contaram o seu sonho. “Este é o momento dos avós… que sonhem e os jovens aprendam a profetizar estes sonhos”.

Em conclusão, o Santo Padre convidou a desenvolver uma pastoral familiar capaz de receber, acompanhar, discernir e integrar. Uma pastoral – disse – quer permita e faça possível o andaime adequado para que a vida confiada a nós encontre o apoio de quem tem necessidade para desenvolver-se segundo o sonho de Deus.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Bento XVI celebrará com o papa Francisco os seus 65 anos de sacerdócio. Será no Vaticano, neste próximo 28 de junho

O papa emérito Bento XVI celebrará no próximo dia 29 de junho os seus 65 anos de ordenação como sacerdote da Igreja católica!

A ocasião extraordinária será marcada, no dia 28 de junho, por uma celebração solene presidida pelo papa Francisco na Sala Clementina do Palácio Apostólico do Vaticano, em presença do festejado.

O papa emérito receberá como presente um livro sobre o sacerdócio produzido especialmente em sua homenagem, conforme divulgado pela Fundação Ratzinger.

Joseph Ratzinger foi ordenado sacerdote na festa de São Pedro e São Paulo do ano de 1951, na catedral de Freising (Frisinga), na Alemanha, juntamente com seu irmão mais velho, o pe. Georg. Eles receberam a ordenação das mãos do cardeal Michael von Faulhaber, o então arcebispo de Munique.

“Éramos mais de quarenta candidatos. Quando nos chamaram, respondemos: ‘Eis-me aqui’”, relata o próprio papa emérito na sua autobiografia.

Após renunciar ao pontificado, Bento XVI respeitou fielmente o próprio retiro em uma vida de oração e dedicação aos aprofundamentos teológicos e filosóficos, aparecendo muito raramente em público. A sua última aparição pública foi durante a abertura do Jubileu da Misericórdia, em 8 de dezembro do ano passado.


http://pt.aleteia.org/2016/06/15/bento-xvi-celebrara-com-o-papa-francisco-os-sus-65-anos-de-sacerdocio/

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Homilia do Santo Padre na Santa Missa do Jubileu dos Sacerdotes

Celebrando o Jubileu dos Sacerdotes na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, somos chamados a concentrar-nos no coração, ou seja, na interioridade, nas raízes mais robustas da vida, no núcleo dos afetos, numa palavra, no centro da pessoa. E hoje fixamos o olhar em dois corações: o Coração do Bom Pastor e o nosso coração de pastores.
O Coração do Bom Pastor é, não apenas o Coração que tem misericórdia de nós, mas a própria misericórdia. Nele resplandece o amor do Pai; nele tenho a certeza de ser acolhido e compreendido como sou; nele, com todas as minhas limitações e os meus pecados, saboreio a certeza de ser escolhido e amado. Fixando aquele Coração, renovo o primeiro amor: a memória de quando o Senhor me tocou no mais íntimo e me chamou para O seguir; a alegria de, à sua Palavra, ter lançado as redes da vida (cf. Lc 5, 5).
O Coração do Bom Pastor diz-nos que o seu amor não tem limites, não se cansa nem se arrende jamais. Nele vemos a sua doação incessante, sem limites; nele encontramos a fonte do amor fiel e manso, que deixa livres e torna livres; nele descobrimos sempre de novo que Jesus nos ama «até ao fim» (Jo 13,1) – não se detém antes, ama até ao fim –, sem nunca se impor.
O Coração do Bom Pastor está inclinado para nós, concentrado especialmente sobre quem está mais distante; para aí aponta obstinadamente a agulha da sua bússola, por essa pessoa revela um fraquinho particular de amor, porque deseja alcançar a todos e não perder ninguém.
À vista do Coração de Jesus, surge a questão fundamental da nossa vida sacerdotal: para onde está orientado o meu coração? Uma pergunta que nós, sacerdotes, nos devemos pôr muitas vezes, cada dia, cada semana: para onde está orientado o meu coração? O ministério aparece, com frequência, cheio das mais variadas iniciativas, que o reclamam em tantas frentes: da catequese à liturgia, à caridade, aos compromissos pastorais e mesmo administrativos. No meio de tantas atividades, permanece a questão: onde está fixo o meu coração? (Vem-me à mente aquela oração tão bela da liturgia: «Ubi vera sunt gaudia…»). Para onde aponta o coração? Qual é o tesouro que procura? Porque – diz Jesus – «onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (Mt 6, 21). Todos nós temos fraquezas e também pecados. Mas procuremos ir ao fundo, à raiz: Onde está a raiz das nossas fraquezas, dos nossos pecados, ou seja, onde está precisamente aquele «tesouro» que nos afasta do Senhor?
Os tesouros insubstituíveis do Coração de Jesus são dois: o Pai e nós. As suas jornadas transcorriam entre a oração ao Pai e o encontro com as pessoas. Não distanciamento, mas o encontro. Também o coração do pastor de Cristo só conhece duas direções: o Senhor e as pessoas. O coração do sacerdote é um coração trespassado pelo amor do Senhor; por isso já não olha para si mesmo – não deveria olhar para si mesmo –, mas está fixo em Deus e nos irmãos. Já não é «um coração dançarino», que se deixa atrair pela sugestão do momento ou que corre daqui para ali à procura de consensos e pequenas satisfações; ao contrário, é um coração firme no Senhor, conquistado pelo Espírito Santo, aberto e disponível aos irmãos. E nisso têm solução os seus pecados.
Para ajudar o nosso coração a inflamar-se na caridade de Jesus Bom Pastor, podemos treinar-nos a fazer nossas três ações que as Leituras de hoje nos sugerem: procurarincluir e alegrar-se.
Procurar. O profeta Ezequiel lembrou-nos que Deus em pessoa procura as suas ovelhas (34, 11.16). Ele – diz o Evangelho – «vai à procura da que se tinha perdido» (Lc 15, 4), sem se deixar atemorizar pelos riscos; sem hesitação, aventura-se para além dos lugares de pastagem e fora das horas de trabalho. E não exige pagamento das horas extraordinárias. Não adia a busca; não pensa: «hoje já cumpri o meu dever; veremos se me ocupo disso amanhã», mas põe-se imediatamente em campo; o seu coração está inquieto enquanto não encontra aquela única ovelha perdida. Tendo-a encontrado, esquece-se do cansaço e carrega-a aos ombros, cheio de alegria. Umas vezes terá de sair à sua procura, falar-lhe, convencê-la; outras deverá permanecer diante do Sacrário, «lutando» com o Senhor por aquela ovelha.
Tal é o coração que procura: é um coração que não privatiza os tempos e os espaços. Ai dos pastores que privatizam o seu ministério! Não é cioso da sua legítima tranquilidade – disse «legítima»; nem sequer desta –, e nunca pretende que não o perturbem. O pastor segundo o coração de Deus não defende as comodidades próprias, não se preocupa por tutelar o seu bom nome, mas será caluniado, como Jesus. Sem medo das críticas, está disposto a arriscar para imitar o seu Senhor. «Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem…» (Mt 5, 11).
O pastor segundo Jesus tem o coração livre para deixar as suas coisas, não vive fazendo a contabilidade do que tem e das horas de serviço: não é um contabilista do espírito, mas um bom Samaritano à procura dos necessitados. É um pastor, não um inspetor do rebanho; e dedica-se à missão, não a cinquenta ou sessenta por cento, mas com todo o seu ser. Indo à procura encontra, e encontra porque arrisca. Se o pastor não arrisca, não encontra. Não se detém com as decepções nem se arrende às fadigas; na realidade, é obstinado no bem, ungido pela obstinação divina de que ninguém se extravie. Por isso não só mantém as portas abertas, mas sai à procura de quem já não quer entrar pela porta. Como todo o bom cristão, e como exemplo para cada cristão, está sempre em saída de si mesmo. O epicentro do seu coração está fora dele: é um descentrado de si mesmo, porque centrado apenas em Jesus. Não é atraído pelo seu eu, mas pelo Tu de Deus e pelo “nós” dos homens.
Segunda palavra: incluir. Cristo ama e conhece as suas ovelhas, dá a vida por elas e nenhuma Lhe é desconhecida (cf. Jo 10, 11-14). O seu rebanho é a sua família e a sua vida. Não é um líder temido pelas ovelhas, mas o Pastor que caminha com elas e as chama pelo nome (cf. Jo 10, 3-4). E quer reunir as ovelhas que ainda não habitam com Ele (cf. Jo 10, 16).
Assim é também o sacerdote de Cristo: é ungido para o povo, não para escolher os seus próprios projetos, mas para estar perto do povo concreto que Deus, através da Igreja, lhe confiou. Ninguém fica excluído do seu coração, da sua oração e do seu sorriso. Com olhar amoroso e coração de pai acolhe, inclui e, quando tem que corrigir, é sempre para aproximar; não despreza ninguém, estando pronto a sujar as mãos por todos. O Bom Pastor não usa luvas… Ministro da comunhão que celebra e vive, não espera cumprimentos e elogios dos outros, mas é o primeiro a dar uma mão, rejeitando as murmurações, os juízos e os venenos. Com paciência, escuta os problemas e acompanha os passos das pessoas, concedendo o perdão divino com generosa compaixão. Não ralha a quem deixa ou perde a estrada, mas está sempre pronto a reintegrar e a compor as contendas. É um homem que sabe incluir.
Alegrar-se. Deus está «cheio de alegria» (Lc 15, 5): a sua alegria nasce do perdão, da vida que ressurge, do filho que respira novamente o ar de casa. A alegria de Jesus Bom Pastor não é uma alegria por Si, mas uma alegria pelos outros e com os outros, a alegria verdadeira do amor. Esta é também a alegria do sacerdote. É transformado pela misericórdia que dá gratuitamente. Na oração, descobre a consolação de Deus e experimenta que nada é mais forte do que o seu amor. Por isso permanece sereno interiormente, sentindo-se feliz por ser um canal de misericórdia, por aproximar o homem do Coração de Deus. Nele a tristeza não é normal, mas apenas passageira; a dureza é-lhe estranha, porque é pastor segundo o Coração manso de Deus.
Queridos sacerdotes, na Celebração Eucarística, reencontramos todos os dias esta nossa identidade de pastores. De cada vez podemos fazer verdadeiramente nossas as suas palavras: «Este é o meu corpo que será entregue por vós». É o sentido da nossa vida, são as palavras com que, de certa forma, podemos renovar diariamente as promessas da nossa Ordenação. Agradeço-vos pelo vosso «sim», e por tantos «sins» diários, escondidos, que só o Senhor conhece. Agradeço-vos pelo vosso «sim a doar a vida unidos a Jesus: aqui está a fonte pura da nossa alegria.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A Igreja celebra neste domingo a Jornada Mundial de Oração pelas vocações


Mensagem do Papa para esta ocasião reflete sobre ‘A Igreja, mãe de vocações’

O Papa Francisco recordou na audiência geral que no próximo domingo será celebrada a Jornada Mundial de Oração pelas vocações. Portanto, exortou os fieis a pedirem a Cristo que envie sempre novos trabalhadores para o seu serviço.
Com o tema “A Igreja, mãe de vocações”, o Santo Padre diz que o dinamismo eclesial da vocação é um antídoto contra o veneno da indiferença e o individualismo.
Portanto, nessa mensagem, o Papa convida todos os fieis a assumir a responsabilidade no cuidado e no discernimento vocacional, especialmente os sacerdotes, porque o cuidado pastoral das vocações é uma parte fundamental do seu ministério pastoral.
Abaixo publicamos toda a mensagem do Papa Francisco:
***
Amados irmãos e irmãs!
Como gostaria que todos os baptizados pudessem, no decurso do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, experimentar a alegria de pertencer à Igreja! E pudessem redescobrir que a vocação cristã, bem como as vocações particulares, nascem no meio do povo de Deus e são dons da misericórdia divina! A Igreja é a casa da misericórdia e também a «terra» onde a vocação germina, cresce e dá fruto.
Por este motivo, dirijo-me a todos vós, por ocasião deste 53º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, convidando-vos a contemplar a comunidade apostólica e a dar graças pela função da comunidade no caminho vocacional de cada um. Na Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, recordei as palavras de São Beda, o Venerável, a propósito da vocação de São Mateus: «Miserando atque eligendo» (Misericordiae Vultus, 8). A acção misericordiosa do Senhor perdoa os nossos pecados e abre-nos a uma vida nova que se concretiza na chamada ao discipulado e à missão. Toda a vocação na Igreja tem a sua origem no olhar compassivo de Jesus. A conversão e a vocação são como que duas faces da mesma medalha, interdependentes continuamente em toda a vida do discípulo missionário.
O Beato Paulo VI, na Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, descreveu os passos do processo da evangelização. Um deles é a adesão à comunidade cristã (cf. n. 23), da qual se recebeu o testemunho da fé e a proclamação explícita da misericórdia do Senhor. Esta incorporação comunitária compreende toda a riqueza da vida eclesial, particularmente os Sacramentos. A Igreja não é só um lugar onde se crê, mas também objecto da nossa fé; por isso, dizemos no Credo: «Creio na Igreja».
A chamada de Deus acontece através da mediação comunitária. Deus chama-nos a fazer parte da Igreja e, depois dum certo amadurecimento nela, dá-nos uma vocação específica. O caminho vocacional é feito juntamente com os irmãos e as irmãs que o Senhor nos dá: é uma con-vocação. O dinamismo eclesial da vocação é um antídoto contra a indiferença e o individualismo. Estabelece aquela comunhão onde a indiferença foi vencida pelo amor, porque exige que saiamos de nós mesmos, colocando a nossa existência ao serviço do desígnio de Deus e assumindo a situação histórica do seu povo santo.
Neste Dia dedicado à oração pelas vocações, desejo exortar todos os fiéis a assumirem as suas responsabilidades no cuidado e discernimento vocacionais. Quando os Apóstolos procuravam alguém para ocupar o lugar de Judas Iscariotes, São Pedro reuniu cento e vinte irmãos (cf. Act 1, 15); e, para a escolha dos sete diáconos, foi convocado o grupo dos discípulos (cf. Act 6, 2). São Paulo dá a Tito critérios específicos para a escolha dos presbíteros (cf. Tt 1, 5-9). Também hoje, a comunidade cristã não cessa de estar presente na germinação das vocações, na sua formação e na sua perseverança (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 107).
A vocação nasce na Igreja. Desde o despertar duma vocação, é necessário um justo «sentido» de Igreja. Ninguém é chamado exclusivamente para uma determinada região, nem para um grupo ou movimento eclesial, mas para a Igreja e para o mundo. «Um sinal claro da autenticidade dum carisma é a sua eclesialidade, a sua capacidade de se integrar harmonicamente na vida do povo santo de Deus para o bem de todos» (Ibid., 130). Respondendo à chamada de Deus, o jovem vê alargar-se o próprio horizonte eclesial, pode considerar os múltiplos carismas e realizar assim um discernimento mais objectivo. Deste modo, a comunidade torna-se a casa e a família onde nasce a vocação. O candidato contempla, agradecido, esta mediação comunitária como elemento imprescindível para o seu futuro. Aprende a conhecer e a amar os irmãos e irmãs que percorrem caminhos diferentes do seu; e estes vínculos reforçam a comunhão em todos.
A vocação cresce na Igreja. Durante o processo de formação, os candidatos às diversas vocações precisam de conhecer cada vez melhor a comunidade eclesial, superando a visão limitada que todos temos inicialmente. Com tal finalidade, é oportuno fazer algumaexperiência apostólica juntamente com outros membros da comunidade, como, por exemplo, comunicar a mensagem cristã ao lado dum bom catequista; experimentar a evangelização nas periferias juntamente com uma comunidade religiosa; descobrir o tesouro da contemplação, partilhando a vida de clausura; conhecer melhor a missão ad gentes em contacto com os missionários; e, com os sacerdotes diocesanos, aprofundar a experiência da pastoral na paróquia e na diocese. Para aqueles que já estão em formação, a comunidade eclesial permanece sempre o espaço educativo fundamental, pelo qual se sente gratidão.
A vocação é sustentada pela Igreja. Depois do compromisso definitivo, o caminho vocacional na Igreja não termina, mas continua na disponibilidade para o serviço, na perseverança e na formação permanente. Quem consagrou a própria vida ao Senhor, está pronto a servir a Igreja onde esta tiver necessidade. A missão de Paulo e Barnabé é um exemplo desta disponibilidade eclesial. Enviados em missão pelo Espírito Santo e pela comunidade de Antioquia (cf. Act 13, 1-4), regressaram depois à mesma comunidade e narraram aquilo que o Senhor fizera por meio deles (cf. Act 14, 27). Os missionários são acompanhados e sustentados pela comunidade cristã, que permanece uma referência vital, como a pátria visível onde encontram segurança aqueles que realizam a peregrinação para a vida eterna.
Dentre os agentes pastorais, revestem-se de particular relevância os sacerdotes. Por meio do seu ministério, torna-se presente a palavra de Jesus que disse: «Eu sou a porta das ovelhas(…). Eu sou o bom pastor» (Jo 10, 7.11). O cuidado pastoral das vocações é uma parte fundamental do seu ministério. Os sacerdotes acompanham tanto aqueles que andam à procura da própria vocação, como os que já ofereceram a vida ao serviço de Deus e da comunidade.
Todos os fiéis são chamados a consciencializar-se do dinamismo eclesial da vocação, para que as comunidades de fé possam tornar-se, a exemplo da Virgem Maria, seio materno que acolhe o dom do Espírito Santo (cf. Lc 1, 35-38). A maternidade da Igreja exprime-se através da oração perseverante pelas vocações e da acção educativa e de acompanhamento daqueles que sentem a chamada de Deus. Fá-lo também mediante uma cuidadosa selecção dos candidatos ao ministério ordenado e à vida consagrada. Enfim, é mãe das vocações pelo contínuo apoio daqueles que consagraram a vida ao serviço dos outros.
Peçamos ao Senhor que conceda, a todas as pessoas que estão a realizar um caminho vocacional, uma profunda adesão à Igreja; e que o Espírito Santo reforce, nos Pastores e em todos os fiéis, a comunhão, o discernimento e a paternidade ou maternidade espiritual.
Pai de misericórdia, que destes o vosso Filho pela nossa salvação e sempre nos sustentais com os dons do vosso Espírito, concedei-nos comunidades cristãs vivas, fervorosas e felizes, que sejam fontes de vida fraterna e suscitem nos jovens o desejo de se consagrarem a Vós e à evangelização. Sustentai-as no seu compromisso de propor uma adequada catequese vocacional e caminhos de especial consagração. Dai sabedoria para o necessário discernimento vocacional, de modo que, em tudo, resplandeça a grandeza do vosso amor misericordioso. Maria, Mãe e educadora de Jesus, interceda por cada comunidade cristã, para que, tornada fecunda pelo Espírito Santo, seja fonte de vocações autênticas para o serviço do povo santo de Deus.
Cidade do Vaticano, 29 de Novembro – I Domingo do Advento – de 2015.
Franciscus

sexta-feira, 11 de março de 2016

Maria recorda que a fé é alegria, ou não é fé

Ariccia (RV) - Os Exercícios espirituais para o Papa Francisco e a Cúria Romana se concluíram na manhã desta sexta-feira (11/03), na Casa ‘Divino Mestre’, em Ariccia.

Para a meditação conclusiva dos Exercícios espirituais Pe. Ermes Ronchi propôs ao Papa e à Cúria Romana uma viagem dentro dos versículos da Anunciação, “evento que se realiza no cotidiano, sem testemunhas, longe das luzes e emoções do templo”, disse o pregador.

“O primeiro anúncio de graça do Evangelho foi entregue à normalidade de uma casa”, ou seja, ao lugar onde cada um é si mesmo. É ali que Deus nos encontra e nos toca”.

Deus está na cozinha

“Santa Teresa de Ávila no “’O livro das fundações’ escreveu para as suas monjas as seguintes palavras: Irmãs, recordem: Deus está entre as panelas, na cozinha. Mas como, o Senhor do universo se move na cozinha do mosteiro, entre jarras, panelas, pratos, caçarolas e frigideiras! Deus na cozinha significa levar Deus a um território de proximidade. Se você não o sente doméstico, isto é, dentro das coisas mais simples, você não encontrou o Deus da vida. Ainda está na representação racional do Deus da religião.”

Promessa de felicidade


“Olhamos para Maria para tentar costurar o rasgão mais dramático de nossa fé”: o “Deus da religião que se separou do Deus da vida”. “A mulher de Nazaré como dona de casa nos lança um desafio enorme: passa de uma espiritualidade que se fundamenta na lógica do extraordinário para a mística do cotidiano. Neste cotidiano, o sentimento que prevalece é o da alegria e são as primeiras palavras da Anunciação: ‘Alegre-se Maria’, pois quando Deus se aproxima traz uma promessa de felicidade”:

“A nós que estamos cobertos de gravidade e peso, e de responsabilidades também, Maria recorda que a fé é alegria ou não é fé. Maria entra em cena como uma profecia de felicidade para a nossa vida, como uma bênção de esperança, consoladora, que desce em nosso mal de viver, nas solidões sofridas, nas ternuras negadas, na violência que nos circunda, mas que não vencerá, porque a beleza é mais forte que o dragão da violência, garante o Apocalipse. O anjo com esta primeira palavra diz que existe uma felicidade no crer, o prazer de crer”.

Obra em nossas casas
“Depois, Maria entra em cena como uma mulher que crê no amor”, disse Pe. Ronchi. “O anjo”, lê-se no Evangelho, “foi mandado a uma virgem, prometida em esposa a um homem chamado José”. Segundo o evangelista Lucas, a anunciação é feita a Maria, e segundo Mateus, a José:

“Mas se sobrepomos os dois Evangelhos vemos com alegria que o anúncio é feito ao casal, ao esposo e à esposa juntos, ao justo e à virgem apaixonados. Deus está na obra em nossos relacionamentos, fala dentro das famílias, dentro de nossas casas, no diálogo, no drama, na crise, nas dúvidas e nos impulsos. Deus não rouba espaço à família, não invade, não fere, não subtrai, procura um sim plural que se torna criativo porque é a soma de dois corações, a soma de muitos sonhos e muito trabalho paciente.”

Fé rochosa ou frágil, mas autêntica

Maria sabe se dirigir a Deus, sabe perguntar como irá acontecer o que lhe foi dito. “Ter perplexidade, fazer-se perguntas é uma maneira de estar diante do Senhor, com toda a dignidade humana”, disse Pe. Ronchi. “Aceito o mistério, mas ao mesmo tempo uso toda a minha inteligência. Digo quais são as minhas estradas e depois aceito estradas acima de mim”:

“Em nenhum lugar se diz que a fé rochosa seja melhor que a fé pequena entrelaçada com perguntas. Basta que seja autêntica, aquela que na sua pequenez precisa ainda mais de Deus. O que me dá esperança é ver como no Povo de Deus continuam crescendo as perguntas, ninguém se contenta mais com respostas e palavras já ouvidas, com respostas prontas, querem entender, ir a fundo, querem fazer própria a fé. Um tempo quando todos ficavam calados diante do sacerdote era um tempo de mais fé? Acredito que seja verdadeiro o contrário e se isso é mais fadigoso para nós é também um aleluia, um finalmente.”

O pensamento conclusivo foi sobre a maternidade de Deus. “Sem o corpo de Maria o Evangelho perde corpo”, disse Pe. Ronchi. “Todos os cristãos são chamados a ser mães de Deus, porque Deus sempre precisa vir ao mundo”. (MJ)

Igreja não acenda os refletores sobre si

Cidade do Vaticano (RV) - A Igreja saiba “colocar-se à parte” para que no seu anúncio faça brilhar sempre o rosto de Deus – não ela mesma. É a exortação feita pelo Padre Ermes Ronchi na quarta meditação dos exercícios espirituais que ele prega ao Papa Francisco e à Cúria Romana, na Casa “Divino Mestre”, em Ariccia. A inspiração da reflexão da manhã desta terça-feira (08/03), veio da passagem em que Pedro faz a sua profissão de fé em Cristo.

A pergunta que Jesus faz aos discípulos ressoa no reparo do “lugar afastado” para onde o Mestre conduziu os discípulos. Por qualquer momento nada de reuniões e o barulho da multidão, mas somente “silêncio, solicitude e oração”. Somente um momento de intimidade “entre eles e entre eles e Deus”. E neste silêncio, aquela pergunta de Jesus que parece uma sondagem de opinião: “Mas quem dizeis vós que Eu sou?”.

O melhor negócio da minha vida

No silêncio análogo do retiro em Ariccia, Padre Ermes Ronchi coloca o Papa e sues colaboradores da Cúria diante da mesma solicitação. E, sobretudo, àquele “mas” que Jesus acrescenta, que percorre a alma: “Mas quem dizeis vós que Eu sou?”. Um modo para dizer aos seus – observa Padre Ronchi, de não se contentar daquilo que dizem as pessoas, porque “a fé não avança por ter ouvido falar”:

“A resposta que Jesus procura não são palavras. Ele procura pessoas. Não definições, mas envolvimentos: o que te aconteceu, quando me encontraste? Jesus é o mestre do coração, Jesus não dá lições, não sugere respostas, conduz com delicadeza a procurar dentro de nós. E eu gostaria de poder responder: te encontrar foi o melhor negócio da minha vida. Foste a melhor coisa que jamais me aconteceu”.

A fé caminha

“Quem sou eu para ti”? é uma pergunta de “enamorados”, diz o pregador dos exercícios. E o que surpreende é que Jesus “não doutrina ninguém”. Os discípulos não devem temer em dar respostas prontas àquela pergunta, “não há nenhum Credo a ser composto”, afirma Padre Ronchi. A Jesus interessa saber se os seus abriram o coração. Afirmar, como faz Pedro, que Cristo é “o filho do Deus Vivo” é uma verdade que tem sentido se Cristo “está vivo dentro de nós”.

“O nosso coração – diz ainda o pregador – pode ser o berço ou a sepultura de Deus”:

“Querem realmente saber algo sobre mim, diz Jesus, e ao mesmo tempo sobre vocês? Temos um compromisso: um homem na cruz. Um que é colocado no alto. Antes ainda, quinta-feira, o compromisso de Cristo será um outro: um que está em um lugar abaixo. Que pega um pano e se inclina para lavar os pés dos seus (...) Razão a Paulo: o cristianismo é escândalo e loucura. Agora entendemos quem é Jesus: é beijo a quem o trai. Não divide ninguém, divide a si mesmo. Não derrama o sangue de ninguém, derrama o seu sangue. Não sacrifica ninguém, sacrifica a si mesmo”.

“Refletores” em Cristo

Até o momento daquela pergunta feita no silêncio, o discípulos não tinham ainda entendido o que estava prestes a acontecer a seu Mestre. Por isso Jesus é rigoroso ao impor-lhes de não dizer nada a ninguém. “Um comando severo” que “chega a toda a Igreja”, destaca o pregador, “porque às vezes já pregamos um rosto deformado de Deus”.

Nós, eclesiásticos, nota Padre Ronchi, “parecemos todos iguais” – mesmos gestos, palavras, vestidos. Mas as pessoas se perguntam: “Diga-me a sua experiência de Deus”. E Cristo, prossegue, “não é aquilo que digo Dele mas aquilo que vivo Dele”. “Não somos nós o mediadores entre Deus e a humanidade, o verdadeiro mediador é Jesus”, conclui o pregador. Como João Batista, devemos preparar a estrada e “colocar-nos à parte”.

“Pensem na beleza de um igreja que não acende os refletores sobre ela mesma – como nestes dias aqui recolhidos – mas sobre um Outro. Temos ainda um caminho a percorrer. Diminuir (...) Jesus não diz “pegue a minha cruz”, mas a sua, cada um a sua (…) O sonho de Deus não é um cortejo sem medidas de homens, mulheres e crianças, cada um com a sua cruz sobre os ombros. Mas de pessoas encaminhadas em direção a uma vida boa, contente e criativa. Uma vida que tem um preço tenaz de compromisso e perseverança. Mas também um preço doce, de luz: no terceiro dia ressuscitará”.

(AC/RB)

http://br.radiovaticana.va/news/2016/03/08/medita%C3%A7%C3%A3o_de_quaresma_igreja_n%C3%A3o_acenda_os_refletores_sobre/1213879

Igreja seja transparente sobre bens

Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco e seus colaboradores da Cúria Romana entraram no quarto dia de reflexões propostas pelo Padre Ermes Ronchi durante os exercícios espirituais de Quaresma, em Ariccia.

“Aquilo que mais fere o povo cristão – observou Padre Ronchi – é o apego do clero ao dinheiro”, enquanto “o que faz o povo cristão feliz é o pão compartilhado”.

Neste contexto, a transparência dos bens da Igreja, a luta contra à fome e contra o desperdício de alimentos foram os principais temas que conduziram a sexta meditação na manhã desta quarta-feira (09/03).

“Existem pessoas tão famintas que para elas Deus não pode não ter outra forma a não ser a de um pão”. Estas foram as palavras iniciais da meditação de Padre Ronchi. A vida tem início com a fome, disse, “estar vivo é ter fome”. E se a visão se amplia, vê-se uma fome das massas, “o assédio dos pobres”, milhões de punhos cerrados que pedem algo para comer, não pedem “uma definição religiosa”.

- E a Igreja, como responde?

Não às cortinas de fumaça

As palavras do Evangelho com as quais Padre Ronchi intercala as suas são aquelas da multiplicação dos pães e dos peixes e da pergunta de Jesus aos discípulos: “Quantos pães vocês têm? Vejam!”. Jesus, observa Padre Ronchi, “é muito prático”, pede “para fazer as contas”.

“Isso é pedido a todos os discípulos também hoje, e a mim: quanto tens? Quanto dinheiro, quantas casas? Que padrão de vida? Vejam, verifiquem. Quantos carros ou quantas joias em forma de cruz e de anéis? A Igreja não deve temer a transparência, não deve ter nenhum medo da clareza sobre os seus pães e peixes, seus bens. Cinco pães e dois peixes”.

Compartilhar é multiplicar


“Com a transparência se é verdadeiro. E quando se é verdadeiro se é também livre”, afirma o pregador dos exercícios. Como Jesus, que “não se fez comprar por ninguém”, e “jamais entrou nos palácios dos potentes, somente quando prisioneiro”.

Quando não se tem, nota Padre Ronchi, procura-se reter, como aquelas Ordens religiosas que tentam administrar os bens como se isso pudesse produzir aquela segurança corroída pela crise das vocações. Ao invés, a lógica de Jesus é aquela do dom. “Amar” no Evangelho se traduz em um verbo seco: “dar”. O milagre da multiplicação diz isto, que Jesus “não se preocupa com a quantidade” do pão, aquilo que quer é que o pão seja compartilhado:

“De acordo com uma misteriosa regra divina: quando o meu pão passa a ser o nosso pão, também o pouco passa a ser suficiente. E, ao contrário, a fome começa quando restrinjo o meu pão a mim, quando o Ocidente saciado restringe seu pão, seus peixes, os seus bens para si (...) Alimentar a terra, toda a terra, é possível, há pão em abundância. Não é preciso multiplicá-lo, basta distribuí-lo, começando por nós. Não são necessárias multiplicações prodigiosas, mas derrotar a Gula do egoísmo, do desperdício de alimento e do acúmulo de poucos”.

“A fome dos outros tem direitos sobre mim”

“Dai e vos será dado. Uma medida boa, socada, sacudida e transbordante será colocada na dobra da vossa veste...”. Nesta promessa de Jesus está contida, reitera Padre Ronchi, “a misteriosa, imensa economia do dom e do cêntuplo, que é o diferencial de todas as balanças. Isto “me conforta – disse – porque mostra que a verdade última segue a lógica do dom, não aquela da observância”. E a “pergunta última será: doaste pouco ou doaste muito à vida”. “Disto depende a vida, não dos bens”, conclui Padre Ronchi. E são suficientes cinco pães doados para mudar o mundo:

“O milagre são os cinco pães e os dois peixes que a Igreja nascente coloca nas mãos de Cristo confiando-se, sem calcular e sem reter qualquer coisa para si e para o próprio jantar. É pouco mas é tudo aquilo que tem, é pouco mas é o jantar completo dos discípulos, é uma gota no mar, mas é aquela gota que pode dar sentido e pode dar esperança à vida”. (rb)

O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença



Ariccia (RV) - O Amor de Deus pelo homem inflama o coração e abre os olhos: esse é o cerne da nona meditação, feita na tarde desta quinta-feira pelo sacerdote dos Servos de Maria, Pe. Ermes Ronchi, no quinto e penúltimo dia dos exercícios espirituais propostos ao Papa Francisco e à Cúria Romana em Ariccia, nas proximidades de Roma. “O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença”, devemos “voltar a nos enamorar”, disse o pregador do Retiro.

Entre Páscoa e Pentecostes Jesus se manifestou novamente aos discípulos no lago de Tiberíades numa noite “sem estrelas”, “amarga” até o “romper da aurora” com Jesus que se manifesta aos seus. A meditação de Pe. Ronchi parte dessa cena com a pergunta de Amor três vezes feita por Jesus, para aproximar-se sempre mais de Simão Pedro. Tu me amas?

Uma pergunta de amor dirigida a cada homem e que “abre percursos, inicia processos”, ressaltou Pe. Ronchi evidenciando mais vezes o dinamismo do amor de Jesus pelo homem, dinamismo este que tudo transforma:

A santidade na paixão por Cristo

“Vejo a santidade descrita nesta página do Evangelho. A santidade não consiste na ausência de pecados, num campo já não mais com ervas daninhas, mas está numa paixão renovada, está no renovar agora a minha paixão por Cristo e pelo Evangelho. Agora.”

Pe. Ronchi explicou que o amor de Deus reacende “os corações”, “a paixão”. “A santidade não é uma paixão apagada, mas uma paixão convertida”, acrescentou. “Quando o amor existe não pode haver equívoco, é evidente, solar, indiscutível.”

A fé possui três passos


É Deus que “ama o homem”, que preenche as insuficiências, “preenche as pobrezas”, não busca nele “a perfeição”, mas “a autenticidade”. “Não estamos no mundo para sermos imaculados, mas para sermos encaminhados”. E invertendo todo esquema fala de “Jesus, mendicante de amor, mendicante sem pretensões” que “conhece a minha pobreza” e que pede “a verdade de um pouco de amizade”. “A fé possui três passos: preciso, confio, me entrego:

O reavivador de laços

“Crer é precisar de amor, confiar-se e fundar-se nisso, como forma de Deus, como forma do homem, como forma do mundo, do futuro, do viver. Confiar-se é fundar a vida nesta hipótese: que mais amor é bom, menos amor é ruim.”

“É abandonar a regra toda vez que ela se opõe ao amor”, dizia Irmã Maria do eremitério de Campello (região italiana da Úmbria). Enquanto o mundo proclama a sua fé, a sua evidência: mais dinheiro é bom, menos dinheiro é ruim.

Mas todo fiel é um fiel no amor: ou seja, um reavivador de laços, um reanimador de laços, alguém que ajuda os homens a reencontrar confiança no amor. Nós cremos no Amor.”

Crer é ter uma relação com Deus


Pe. Ronchi frisou que “crer é ter uma relação com Deus”, caminhar no amor com uma pessoa” e a salvação está na certeza de que é Ele quem “ama”. “A crise de fé no mundo ocidental”, explicou em seguida o pregador dos exercícios espirituais, “começa” propriamente “com a crise do ato humano de crer”. “Porque não se crê no amor.” O amor é dar:

O contrário do amor não é o ódio

“O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença que é a seiva que alimenta todo mal, a seiva secreta do pecado. A indiferença na qual o outro para você não existe, não conta, não vale, não é nada.”

“Hoje devemos voltar a enamorar-nos.” Amar a Deus “com todo nosso ser, corpo e alma”. “Deixe de amar como submisso, deixe de amar como escravo”, concluiu. “É preciso voltar a amar a Deus como enamorados. Aí sim, a vida, e a fé” se tornarão repletas de sorrisos. (RL)

quinta-feira, 10 de março de 2016

“Jesus não é moralista, nós é que moralizamos o Evangelho”




Na pregação do Pe. Ronchi nos exercícios espirituais do Papa e da Cúria, recorda que Jesus não usa a lógica das categorias ou estereótipos

Jesus não é moralista, nós é que moralizamos o Evangelho. Essa a advertência do Pe. Ermes Ronchi, na quinta meditação dos exercícios espirituais do Papa Francisco e da Cúria Romana, que estão sendo realizados na Casa Divin Maestro de Ariccia.

Partindo da passagem do Evangelho na qual Jesus, enviado à casa de Simão fariseu, rompe qualquer condenação e deixa que uma mulher, para todos pecadora, chore em seus pés e os seque com os seus cabelos, beijando-os e lavando-os com azeite perfumado. E diante da surpresa de Simão, Jesus o repreende: “Olhe esta mulher” que, de pecadora se converte na “perdoada que amou muito”. Dessa forma, o pregador indicou que “na cena da casa de Simão o fariseu, se vê um conflito surpreendente: o piedoso e a prostituta; o poderoso e a sem nome, a lei e o perfume, a regra e o amor, em comparação”.

O erro de Simão – garantiu – é o olhar que julga. “Jesus, por toda a sua existência ensinará o olhar que não julga, inclusivo, o olhar misericordioso”. O pregador dos exercícios esclareceu que Simão coloca no centro da relação entre o homem e Deus “o pecado, fazendo-o a coluna vertebral da religião”. O erro dos moralistas de cada época, dos fariseus de sempre. Jesus – recordou – não é moralista, porque coloca no centro da pessoa com lágrimas e sorrisos, a sua carne dolorida ou exultante, e não a lei. No Evangelho, como recordou o pregador, encontramos mais frequentemente a palavra pobre do que pecador.

“Adão é pobre antes que pecador, somos frágeis e guardiões de lágrimas, prisioneiros de mil limites, antes que culpados”. Somos nós – advertiu – os que moralizamos o Evangelho.

A este respeito, disse que no princípio não era assim. O pe. Vanucci explica muito bem: o Evangelho não é uma moral, mas uma chocante libertação. E nos leva para fora do paradigma da plenitude, da vida em plenitude.

Simão, o moralista, olha para o passado da mulher, vê “uma história de transgressões”, enquanto que Jesus vê “o muito amor de hoje e amanhã”.

Assim, o Pe. Ronchi explicou que “Jesus não ignora quem é, não finge não saber, mas recebe. Com as suas feridas e especialmente com a sua centelha de luz, é que Ele faz reviver”. O centro do jantar tinha que ser Simão, piedoso e poderoso, porém, é a mulher. “Só Jesus é capaz de fazer esta mudança de perspectiva, fazer este espaço para os últimos. Jesus afasta do ponto focal o pecado da mulher e as faltas de Simão, desconstrói, coloca-o em dificuldade como fará com os acusadores da adúltera no templo”.

Se Jesus me perguntasse também a mim – disse Ronch – vê essa mulher? Deveria responder: “não, Senhor, aqui vejo só homens”: Não é muito normal isso, admitamos. Devemos tomar nota de um vazio que não corresponde à realidade da humanidade e da Igreja”.

“Não era assim no Evangelho”, onde muitas mulheres seguiam e serviam Jesus, mas “não a vejo seguindo-nos”, observou o pe. Ronchi.

“O que nos assusta que devemos ficar longe dessa mulher e das outras? Jesus era sumamente indiferente ao passado de uma pessoa, ao sexo de uma pessoa, não pensa nunca por categorias ou estereótipos. E acho que também o Espírito Santo distribui seus dons sem olhar para o sexo das pessoas “, disse.

Jesus, marcado pela mulher que o comoveu, não a esquece: na última ceia retomará o gesto da pecadora desconhecida e apaixonada, lavará os pés dos seus discípulos e os secará. “Quando ama, o homem realiza gestos divinos, Deus quando ama realiza gestos humanos, e o faz com o coração de carne”.

Finalmente, o pregador deu um conselho aos confessores: “É tão fácil para nós quando somos confessores não ver as pessoas, com as suas necessidades e a suas lágrimas, mas ver a norma aplicada ou violada. Generalizar, empurrar as pessoas dentro de uma categoria, classificar. E assim alimentamos a dureza do coração, a esclerocardia, a doença mais temida por Jesus. Nos transformamos em burocratas das regras e analfabetos do coração; não encontramos a vida, mas só nosso preconceito”.

quarta-feira, 9 de março de 2016

“O nosso coração pode ser a manjedoura ou o túmulo de Deus”

Continuam as meditações do Pe. Ermes Ronchi durante os Exercícios Espirituais de Quaresma com o Papa e a Cúria. O desejo de uma Igreja “longe de refletores”, que desenvolve a sua tarefa de “sal e luz” no mundo

A Igreja saiba “colocar-se à parte” para que no seu anúncio faça brilhar sempre o rosto de Deus – não ela mesma. É a exortação feita pelo Padre Ermes Ronchi na quarta meditação dos exercícios espirituais que ele prega ao Papa Francisco e à Cúria Romana, na Casa “Divino Mestre”, em Ariccia. A inspiração da reflexão da manhã desta terça-feira (08/03), veio da passagem em que Pedro faz a sua profissão de fé em Cristo.
A pergunta que Jesus faz aos discípulos ressoa no reparo do “lugar afastado” para onde o Mestre conduziu os discípulos. Por qualquer momento nada de reuniões e o barulho da multidão, mas somente “silêncio, solicitude e oração”. Somente um momento de intimidade “entre eles e entre eles e Deus”. E neste silêncio, aquela pergunta de Jesus que parece uma sondagem de opinião: “Mas quem dizeis vós que Eu sou?”.
O melhor negócio da minha vida
No silêncio análogo do retiro em Ariccia, Padre Ermes Ronchi coloca o Papa e sues colaboradores da Cúria diante da mesma solicitação. E, sobretudo, àquele “mas” que Jesus acrescenta, que percorre a alma: “Mas quem dizeis vós que Eu sou?”. Um modo para dizer aos seus – observa Padre Ronchi, de não se contentar daquilo que dizem as pessoas, porque “a fé não avança por ter ouvido falar”:
“A resposta que Jesus procura não são palavras. Ele procura pessoas. Não definições, mas envolvimentos: o que te aconteceu, quando me encontraste? Jesus é o mestre do coração, Jesus não dá lições, não sugere respostas, conduz com delicadeza a procurar dentro de nós. E eu gostaria de poder responder: te encontrar foi o melhor negócio da minha vida. Foste a melhor coisa que jamais me aconteceu”.
A fé caminha
“Quem sou eu para ti”? é uma pergunta de “enamorados”, diz o pregador dos exercícios. E o que surpreende é que Jesus “não doutrina ninguém”. Os discípulos não devem temer em dar respostas prontas àquela pergunta, “não há nenhum Credo a ser composto”, afirma Padre Ronchi. A Jesus interessa saber se os seus abriram o coração. Afirmar, como faz Pedro, que Cristo é “o filho do Deus Vivo” é uma verdade que tem sentido se Cristo “está vivo dentro de nós”.
“O nosso coração – diz ainda o pregador – pode ser o berço ou a sepultura de Deus”:
“Querem realmente saber algo sobre mim, diz Jesus, e ao mesmo tempo sobre vocês? Temos um compromisso: um homem na cruz. Um que é colocado no alto. Antes ainda, quinta-feira, o compromisso de Cristo será um outro: um que está em um lugar abaixo. Que pega um pano e se inclina para lavar os pés dos seus (…) Razão a Paulo: o cristianismo é escândalo e loucura. Agora entendemos quem é Jesus: é beijo a quem o trai. Não divide ninguém, divide a si mesmo. Não derrama o sangue de ninguém, derrama o seu sangue. Não sacrifica ninguém, sacrifica a si mesmo”.
“Refletores” em Cristo
Até o momento daquela pergunta feita no silêncio, o discípulos não tinham ainda entendido o que estava prestes a acontecer a seu Mestre. Por isso Jesus é rigoroso ao impor-lhes de não dizer nada a ninguém. “Um comando severo” que “chega a toda a Igreja”, destaca o pregador, “porque às vezes já pregamos um rosto deformado de Deus”.
Nós, eclesiásticos, nota Padre Ronchi, “parecemos todos iguais” – mesmos gestos, palavras, vestidos. Mas as pessoas se perguntam: “Diga-me a sua experiência de Deus”. E Cristo, prossegue, “não é aquilo que digo Dele mas aquilo que vivo Dele”. “Não somos nós o mediadores entre Deus e a humanidade, o verdadeiro mediador é Jesus”, conclui o pregador. Como João Batista, devemos preparar a estrada e “colocar-nos à parte”.
“Pensem na beleza de um igreja que não acende os refletores sobre ela mesma – como nestes dias aqui recolhidos – mas sobre um Outro. Temos ainda um caminho a percorrer. Diminuir (…) Jesus não diz “pegue a minha cruz”, mas a sua, cada um a sua (…) O sonho de Deus não é um cortejo sem medidas de homens, mulheres e crianças, cada um com a sua cruz sobre os ombros. Mas de pessoas encaminhadas em direção a uma vida boa, contente e criativa. Uma vida que tem um preço tenaz de compromisso e perseverança. Mas também um preço doce, de luz: no terceiro dia ressuscitará”.
[Fonte: Rádio Vaticano]

https://pt.zenit.org/articles/o-nosso-coracao-pode-ser-a-manjedoura-ou-o-tumulo-de-deus/

terça-feira, 8 de março de 2016

“Todo homem procura um Deus envolvente. Deus pode morrer de tédio em nossas igrejas…"

Primeiras meditações do Pe. Ermes Ronchi, durante os Exercícios Espirituais de Quaresma com o Papa e a Cúria Romana em Ariccia, sobre o tema “As francas questões do Evangelho”

“Jesus então virou-se e, observando aqueles que o seguiam, disse-lhes O que procurais?” A pergunta de Cristo, que ressoou ontem na capela da Casa ‘Divino Mestre’ de Ariccia, onde o Papa e a Cúria estão reunidos desde ontem à tarde para os Exercícios Espirituais de Quaresma.
Pe. Ermes Ronchi, sacerdote friulano da Ordem dos Servos de Maria, foi escolhido (por telefone) pelo Papa para guiar as meditações até o próximo dia 11 de março com o tema “As nuas perguntas do Evangelho”. Perguntas – disse o religioso na sua primeira reflexão relatada pela Rádio Vaticano – que devem ser “amadas” em quanto “já revelação”. São “o outro nome da conversão”. Jesus, de fato, educa à fé através de perguntas, “muito mais do que através de palavras assertivas.”
Mais de 220 são as relatadas nos Evangelhos, porque “a pergunta é a comunicação não violenta” – explica o sacerdote servita – “que não cala o outrou, mas relança o diálogo, o envolve e, ao mesmo tempo, o deixa livre”.
A proposta para estes dias de exercícios é, portanto, “de parar para ouvir um Deus de perguntas: não mais questionar ao Senhor, mas deixar-nos interrogar por Ele. E em vez de correr rápido para buscar resposta, parar para viver bem as perguntas”.
O próprio Jesus é uma pergunta, diz Ronchi: “A sua vida e a sua morte nos desafiam sobre o sentido último das coisas, nós questionam sobre o que faz feliz a vida”. E “a resposta é ainda Ele” que “não pede antes de mais nada renúncias ou sacrifícios, não pede para imolar-se sobre o altar do dever ou do esforço, pede em primeiro lugar reentrar no coração comprende-lo, conhecer.
Papa-Esercizi-Spirituali
Procurar a felicidade equivale, portanto, a buscar Deus, “um Deus sensível ao coração, um que faz feliz o coração, cujo nome é alegria, liberdade e plenitude”. “Deus é belo. Nos corresponde anunciar um Deus belo, desejável, interessante”; “a paixão por Deus – acrescenta o pregador – nasce precisamente de ter descoberto a beleza de Cristo.
“Deus me atrai por ser onipotente, não me seduz por ser eterno ou perfeito;” Ele “me seduz com o rosto e a história de Cristo, o homem da vida boa, bela, beata, livre como ninguém, amor como nenhum outro”. Jesus “é a bela notícia que diz: é possível viver melhor, para todos. E o Evangelho possuiu a chave”.
No entanto, nós “empobrecemos o rosto de Deus, que, por vezes, reduzimos a miséria, relegado a remexer no passado e no pecado do homem”. Um Deus, disse o padre Hermes, “que é adorado e venerado”, mas que não é aquele “envolvido, e envolvente, que ri e brinca com os seus filhos”.
Todo homem, no entanto, concluiu o religiosa, “buscar um Deus envolvente”: “Deus pode morrer de tédio nas nossas igrejas. Devolvamos-lhe o seu rosto solar, um Deus amável, desejável, querido. Será como beber das fontes da luz, das bordas infinito”. A reflexão concluiu, portanto, como começou, com uma pergunta: “O que procurais? Para quem caminhais? “. Ronchi deixa transparecer a primeira resposta desta semana de meditações: “Procuro um Deus desejável, caminho por alguém que faz feliz o coração”.
No segundo dia dos exercícios espirituais o religioso focou nas duas palavras-chave: “medo e fé” a partir do passo da tempestade acalmada na qual Jesus pergunta aos discípulos: “Por que tendes medo, ainda não tendes fé?” (Mc 4, 40). São “os dois antagonistas que se disputam eternamente o coração do homem”, destaca o Pe. Hermes, “a Palavra de Deus, de um extremo ao outro da Bíblia conforta e anima, repetindo várias vezes: não temais. Não tenhais medo!”
Medo que não é tanto a falta de coragem mas “falta de confiança”, de cair na ilusão de acreditar em “um Deus que tira e não em um Deus que dá.” O erro, isto é, que cometeram Adão e Eva que se deixam persuadir pelo diabo e “acreditam em um Deus que rouba liberdades, em vez daquele que oferece possibilidades; Acreditam em um Deus que se preocupa mais com a sua lei do que com a alegria dos seus filhos; um Deus com ollhar crítico, do qual deve-se fugir em vez de correr na sua direção”.
“Um Deus, afinal, não confiável.”
E o primeiro de todos os pecados – diz Ronchi – é o “pecado contra a fé” que nasce “da imagem errada de Deus” da qual, por sua vez, nasce “o medo dos medos”. “Do rosto de um Deus temível vem o coração medroso de Adão”, que é o mesmo coração amedrontado de todos nós quando nos encontramos na tempestade: porque nos sentimos abandonados, porque “Deus parece dormir” porque “queremos que intervenha rápido”.
Mas Deus intervém. Ele “não age em nosso lugar – destaca o servita – não nos tira das tempestades mas nos apoia dentro das tempestades”. Como escrevia Bonhoeffer: “Deus não salva do sofrimento, mas no sofrimento, não protege da dor, mas na dor, não salva da cruz, mas na cruz … Deus não traz a solução para os nossos problemas, traz a si mesmo e dando-se-nos nos dá tudo” E nos deu Jesus que “veio para preencher de luz, de sol”.
“Talvez – diz o padre Hermes Ronchi – nós pensamos que o Evangelho iria resolver os problemas do mundo ou, pelo menos, que teria diminuído a violência e as crises da história, mas não é assim. Na verdade o Evangelho trouxe consigo rejeição, perseguições, outras cruzes: pensemos nas 4 irmãs mortas em Aden”.
Mas Jesus “nos ensina que só há uma maneira de superar o medo: é a fé!”. Missão da Igreja, também no interior, é, portanto, libertar do medo que nos faz usar diferentes máscaras com aqueles que nos rodeiam.Exercícios Espirituais
“Por um longo tempo – releva o pregador – a Igreja transmitiu uma fé cheia de medo que girava em torno do paradigma culpa/castigo, em vez de no florescimento e plenitude.”
Esse medo tem produzido e produz “um cristianismo triste, um Deus sem alegria”. Liberar do medo, então, significa “trabalhar ativamente para levantar este manto de medo que está sobre o coração de tantas pessoas: o medo do outro, o medo do estrangeiro. Passar da hostilidade, que pode ser também instintiva, à hospitalidade, da xenofobia à filoxenia”. E significa “libertar os fieis do medo de Deus, como fizeram ao longo de toda a história sagrada os seus anjos: ser anjos que libertam do medo”.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Papa dá conselhos a seminaristas sobre ser um bom sacerdote

Em encontros com seminaristas no Vaticano, Papa deu conselhos sobre  ser um bom sacerdote, o que inclui simplicidade e misericórdia

Da Redação, com Rádio Vaticano
Que os padres sejam simples, evitem todo tipo de duplicidade e não procurem o próprio interesse. Essas foram algumas das palavras que o Papa Francisco dirigiu aos seminaristas do Pontifício Seminário Lombardo, recebidos em audiência nesta segunda-feira, 25, no Vaticano, por ocasião dos 50 anos de fundação. O Papa deu a eles conselhos sobre ser um bom sacerdote.
Francisco convidou os padres a serem pastores para o povo, principalmente para os mais pobres; devem ser padres segundo o coração de Deus, não segundo as preferências de cada um ou as “modas” do momento.
O Santo Padre também alertou sobre algumas tentações que se colocam aos sacerdotes, como aquela de se conformar com a normalidade. “A ‘normalidade’ para nós é a santidade pastoral, o dom da vida. Se um sacerdote escolhe ser só uma pessoa normal, será um sacerdote medíocre ou pior”.

Homens espirituais e pastores misericordiosos

Como modelo para os seminaristas, o Papa indicou São Carlos Borromeu, padre jesuíta cuja vida foi um constante movimento de conversão. O santo dizia que só pode anunciar palavras de vida quem faz da própria vida um diálogo constante com a Palavra de Deus.
“Nestes anos, foi confiada a vocês a missão de treinar para este diálogo de vida, de forma que o conhecimento das várias disciplinas que vocês estudaram não são fins em si mesmas, mas devem ser concretizadas no diálogo da oração e no encontro real com as pessoas”.
Na formação dos padres, o Papa destacou que oração, cultura e pastoral são pedras de um único edifício e devem estar sempre unidas para que os sacerdotes de hoje e de amanhã sejam homens espirituais e pastores misericordiosos. Além disso, a simplicidade da vida também é um caminho essencial.
“Simplicidade de vida, que evite toda forma de duplicidade e mundanidade, à qual baste a comunhão genuína com o Senhor e com os irmãos; simplicidade de linguagem; não pregadores de doutrinas complexas, mas anunciadores de Cristo, morto e ressuscitado por nós”.
Outro ponto destacado pelo Papa foi a necessidade, para um bom padre, do contato e da proximidade com o bispo. “Um sacerdote que não tenha uma relação assídua com o seu bispo lentamente se isola do corpo diocesano e a sua fecundidade diminui, justamente porque não exercita o diálogo com o Pai da Diocese”.
Francisco encorajou os seminaristas a cultivar a beleza da amizade e a arte de estabelecer relações, para criar uma fraternidade sacerdotal mais forte que as adversidades particulares.

Fonte: http://papa.cancaonova.com/papa-da-conselhos-a-seminaristas-sobre-ser-um-bom-sacerdote/